domingo, agosto 23, 2009

O Passado do Mago!

Mal amanhece já ouço, do meu quarto, a voz de Miranda, grande Miranda... Velho amigo de meu avô e aparentemente 10 anos mais jovem que ele. Todas as manhãs ele vem a nossa casa chamar meu avô para uma caminhada gritando na porta:

- Acorda logo, velho Celso!

Os dois deram aulas juntos de teatro quando novos. Fiquei sabendo disso por Miranda, que era muito mais chegado a minha irmã e eu que meu legitimo avô Celso. Minha irmã, Laura, tem 20 anos, aparenta ter 30 a primeira vista e 40 na segunda, tem um rosto amargurado apesar da sua tenra idade. Um dia questionei à nossa mãe o porque do vovô ser tão quieto,sisudo e introspectivo. Ela disse que ele era um ator de teatro famoso e juntamente com Miranda tiveram uma decepção enorme no trabalho que nunca revelaram a família a tratavam disso apenas um com o outro. Mas porque então, Miranda tinha a mesma idade do vovô, passara as mesmas dificuldades e decepções e não era tão amargurado? Sorria e nos abraçava quando nos visitava, dava presentes, contava histórias e estava sempre sorrindo? Minha mãe não soube responder... Calou-se e fez uma expressão com o rosto digna de que também queria saber... Perguntei se vovó tinha algo a ver com isso, afinal de contas, não se ouvia muitas historias sobre ela. Nada para ser mais específico. A única coisa que soube dela é que também era atriz e das boas! Miranda, até onde sei, não era um bom ator, mas era, além de melhor amigo de vô Celso, um diretor de mão cheia e graças a sua aguçada percepção meu avô foi o que foi.

Em reuniões de família tínhamos alguns mitos e tabus. Há assuntos, principalmente sobre o vô Celso, que são proibidos. As vezes eufóricos passamos dos limites e perguntamos coisas que ele sabe, porém não responde, como por exemplo sobre a peça que o consagrou como grande ator que tinha o nome de O Mago, tampouco sobre a última peça que fez ao lado de vovó Flora chamada A tempestade. Vovô tem um olhar distante, e para quem não o conhece as vezes soa como arrogante. Se falamos sobre algum assunto mais específico prefere se abster, para evitar dar muitas explicações sobre suas idéias, dando uma impressão que não seríamos inteligentes o suficiente para entender-lo, ou mesmo dignos de ouví-lo.

Já estamos na primeira semana do verão e sexta será meu último dia de aula. Combinei com uns amigos de sairmos para comemorar, avisei mamãe que voltaria mais tarde, foi quando fiquei sabendo que mamãe e Laura iriam viajar para a praia com algumas amigas. Apenas vovô ficaria em casa. O inicio do verão é difícil para mim porque é aniversário da morte de meu pai Bernard, que faleceu há 2 anos, vítima de um acidente de carro.

Faltavam alguns minutos para acabar a aula quando uma pequena depressão me acometeu, todos vibravam com o fim do ano letivo, mas eu murchei, assim como no ano passado. Desculpei-me com o pessoal voltei para casa, o tempo estava se fechando e perto das 15h o céu estava completamente nublado, dando a tarde um tom de outono, apesar do calor. Não tinha nada o que fazer em casa, apenas não queria estar na rua. Cheguei em casa naquela tarde por volta de 16h, estava tudo quieto, deserto e escuro, apenas a luz de meu quarto acessa, o quarto de vô celso estava trancado, me fazendo imaginar que tivesse saído. Nunca entrei no quarto de meu avô, Laura também não e tenho quase certeza que mamãe também não. Ele mesmo limpava e cuidava. Não me lembro, em 18 anos de vida naquela casa, ver algum móvel entrar ou sair, tinha uma idéia do tamanho do quarto pela dimensão da casa e como ele se projetava para fora de casa, chegando perto da garagem, era como se fossem duas casas separadas. A porta era de madeira de lei muito grossa e escura, uma fechadura de bronze e duas trancas que estavam fixadas no alto da porta, o que explica o molho de chaves que vô Celso leva no bolso do paletó. Ainda no corredor, há um relógio cuco antigo e pifado, também de madeira de lei, que nunca vi funcionar, que, numa segunda olhada, percebi estar estrategicamente colocado da diagonal da porta do quarto, formando um triangulo juntamente com os dois marcos da porta.

Estava me sentindo cansado, resolvi deitar e dormir... Após pegar no sono, comecei a revirar-me na cama. Incomodado e levando em consideração que estava sozinho em casa achei-me no direito de abrir uma garrafa de vinho tinto, que mamãe escondia de Laura e de mim, em seu quarto. Tomei ¼ da garrafa antes de começar a ficar tonto e os outros ¾ depois de ficar tonto. Voltando safo do quarto de minha mãe até meus aposentos, parei em frente ao quarto do vovô, após olhar aquela porta pesada sem pensar em absolutamente nada sobre ela, me bateu ao ouvido um sopro de adentrá-la, antes de dar um passo outro sopro me aconselhou a não fazer, mas afinal de onde viria esse sopro? Senti-me vigiado. Foi quando olhei para trás e vi o cuco do relógio saltar em minha direção fazendo um ruído muito alto e forte como o de um despertador. Com o susto dei um passo para trás e esbarrei na porta do quarto que facilmente se abriu, caí no chão sentado em cima de um tapete verde musgo com algo escrito em francês que não pude traduzir. Como num passe de mágica a porta já estava fechada. Tentei me levantar para abrí-la novamente e sair, mas senti minhas pernas demasiadamente pesadas, assim como meus braços, não vi mais a garrafa de vinho, suspeito que tenha ficado no corredor, em frente ao cuco. O ambiente era escuro e ao longe comecei a perceber um a música suave e uma fumaça de charuto. Tentei rastejar até perto da porta para procurar um interruptor, porém em vão. Notei que além de música e fumaça também pude perceber uma estrondosa tempestade que caía lá fora.

Não sei se foi por estar caído no chão, mas notei o teto do quarto extremamente alto, quase o dobro de um quarto normal. Também não sei se por efeito do vinho, mas comecei a ter algumas alucinações, imaginando o porque daquilo, veio-me a cabeça que poderia vovô, ao entrar no quarto, transformar-se em um homem gigante, o que explicaria a projeção do quarto para fora da casa, quase invadindo a garagem, notei nesse momento também que a música era francesa e de época. Era cantada por uma voz feminina que deslizava em meus ouvidos de forma muito agradável. Pus-me de pé com certo esforço e tentei andar com mais esforço ainda, ainda sentindo os braços pesados estava caminhando como um primata, com os pulsos a altura dos joelhos. O quarto transformara-se em um extenso corredor, depois de alguns passos notei na parede à minha esquerda um retrato de vô Celso quando jovem, muito bonito, com uma postura real que muito me impressionou. Segui andando e vi ao longe, no fim do quarto, um retrato maior de uma mulher extremamente linda, que logo, supus ser vovó Flora. Lembro-me de ver poucas fotos dela da época do teatro, mas nenhuma tão angelical e simples como aquela, os cabelos lisos e louros, os olhos azuis e expressivos, apenas olhar para um rosto como aquele me trazia paz, tive impressão de que enquanto a olhava, de ter levitado por alguns instantes. Segui, mesmo com dificuldade, andando até perto do quadro, o som da tempestade se misturava com o a música.

Foi quando parei exatamente ao lado de uma cadeira de balanço onde meu avô estava sentado, ao lado de um velho abajur, que virada para o lado oposto, iluminava apenas o cinzeiro. Congelei temendo que vô Celso me visse e me xingasse por entrar no quarto, mas ele não me viu. Ele olhava ininterruptamente para o quadro, sem mover um músculo sequer. O charuto queimava no cinzeiro dando a noção que ele não o havia tragado uma só vez. Pensei em me mexer, mas não sabia até que ponto estava concentrado no quadro. Teria ele apenas acendido o charuto para lembrar de vó Flora? Nunca o vi fumando. Estava ficando com medo!

Vendo que não tinha sido descoberto ainda, e que ele estava compenetrado, decidi-me dar meia volta e ir embora dali de uma vez por todas e esquecer que aquilo tinha acontecido, quando notei a música ficar mais acelerada que o comum e ouvi a voz grave de vô Celso que seguia olhando fixamente para o quadro:

- Olá, Miranda....

- Meu coração acelerou, olhei em volta e não vi Miranda no quarto, comecei a tremer muito, a ponto de ouvir o tiritar de meus joelhos... Calei...

- Porque veio cedo hoje? Perguntou vô Celso....

Tentei sair correndo, mas não conseguia mover as pernas por tamanho medo... Vô Celso continuou:

- Deixe-me ficar mais um instante com ela, ela me faz tão bem....

- Pensei por um instante que meu avô estivesse dormindo, e por consequência sonhando que encontrara o amigo, foi quando ouvi Miranda falar:

- Vim no mesmo horário de sempre, velho amigo. Como tem passado?

Estupefato vi Miranda parado ao meu lado. Ao vê-lo parei de tremer e meu coração foi gradativamente voltando ao seu batimento natural.

- A saudade tem me matado, quando voltarei a vê-la? Respondeu meu avô.

Quando for o momento, - respondeu Miranda, docemente- , e principalmente, quando estiver preparado, concluiu.

Meu avô enxugou algumas lágrimas que caíram sobre seu rosto e foi prontamente consolado por Miranda, que disse:

- Flora está ao lado de Deus, amigo.

- Ela não sente saudade de mim?

- Sente, mas tem, já, a consciência que se lamentar não irá o trazer para perto dela. O que me diz de apagar esse cigarro, acender essa luz e voltar à luta?

- Sempre me consolando... Não sei o que seria de mim sem você....

- Não faço nada além da tarefa que me foi confiada, você deveria fazer o mesmo...

- Eu sei, mas essa tempestade, lembro de Flora... Flora....

Meu Avô pareceu ter adormecido.

De repente vi que o quarto estava novamente iluminado, alías extremamente iluminado, o charuto havia se apagado e meu avô estava em uma cama dormindo com o uma criança, porém não com um ar cansado como o de costume quando dormia na sala de casa, e sim com um ar de paz muito grande. Que se passava ali? Penso que bebi demais.

O teto do quarto estava, novamente, em altura normal, e com a luz, pude ver o grande número de quadros que havia na parede, fotos e retratos de peças de teatro de 20, talvez 30 anos atrás.
Vi vovó vestida de anjo em um quadro que representava uma peça com o nome de Céu, ao lado de vovô, que demonstrava no quadro enorme alegria! Fiquei contente em vê-los sorrindo, aliás, me sentia extremamente mais leve de que quando entrei ali. Não tinha mais o gosto do álcool na boca e também não sentia mais os braços, tampouco as penas pesadas.

Porém apesar disso, tinha que sair dali e a porta seguia trancada.... Foi quando senti em meu ombro a mão leve de Miranda, que disse-me de forma angelical e paternal:

- Ajuda para sair?

- Sim, por favor, respondi sorrindo!

Tocando muito levemente com a mão na maçaneta, Miranda abriu a porta e saímos.

- Saindo do corredor para a sala perguntei, como você entrou no quarto sem que pudesse vê-lo?

- Quer mesmo saber?

- Sim, retruquei de pronto.

- Sou o anjo da guarda de seu avô!

Parei o olhar e sem pensar em duvidar, calei por um instante. Como assim anjo?

Como se lesse meus pensamentos ele respondeu:

- Sou amigo de seu avô e de sua família há muitos anos e muitas vidas, nesse momento de confusão em que seu avô vive me dispus a ajudá-lo.


- O que aconteceu com você e o vovô antigamente em uma peça misteriosa que não deu certo? Segundo a minha mãe esse é o grande causador de uma parte da tristeza de meu avô.

- Seu avô era, sem sombra de dúvidas, a cabeça mais inteligente que conheci, tinha ideias fantásticas sobre tudo, escreveu inumaras peças de teatro junto a sua vó, que também era genial. Embora tenham nascido aqui, conheceram-se na França durante um festival, se apaixonaram e casaram-se.
Seu avô tinha uma idéia não acabada de um romance chamado A Tempestade, essa história de passava em uma cidade pequena, na Rússia, em que uma tempestade caia torrencialmente durante 4 meses, presos, cada um em sua casa, não conseguiam se ver, um homem e uma mulher, com o passar do tempo passaram a se comunicar por telepatia, que foi desenvolvida pelo amor puro que tinham um com o outro.
Sua avó Flora completou a história dando um final lindíssimo, onde ambos morreram ao mesmo tempo e suas almas se encontraram nos céus, onde foram eternamente felizes. Flora ressaltou que o amor não precisa estar de corpo presente para existir e se desenvolver, e também deixou claro que não há chuva que não passe, assim como não há uma situação desagradável em sua vida que não tenha fim. O espetáculo era muito emocionante e fez um sucesso sem tamanho por toda a Europa durante muitos anos.

- E porque parou de fazer? Questionei.

- Porque Flora adoeceu e faleceu, segundo Celso foi por um descaso do médico que a cuidou, acusou-o de dar em cima de Flora, e após ter levado um não, tratou-a com displicência. Por muitos anos Celso viveu em depressão profunda, culpando o médico, que veio a falecer um ano depois disso.

- Mas diante a isso o que pode ele fazer para mudar a situação?

- Perdoar! Perdoar independente do que aconteça, do mau que o aflija. Ao momento que aprender a perdoar, se libertará de muitas chagas que o ferem hoje, mas já é tarde, preciso ir, marquei de sair com seu avô e logo mais voltarei aqui.

Nos depedimos e vi que o dia já estava por raiar, daqui há não muito tempo já será alvorada.

Ao colocar a cabeça no travesseiro pensei tinha sido duro demais com o vovô, pensando que não gostasse de nós, ele apenas tem um amor profundo por alguem e sente saudades, como qualquer outra pessoa, espero ter um amor assim também, viver o que viveu. No fundo ele sente o que senti por papai hoje, uma falta imensa de estar perto, de abraçar, de falar sobre meu dia, do calor dele.

Não sei se conto o que vi hoje para a mamãe e para Laura, não sei como interpretariam. Vou ser mais brando como o vovô, quem sabe ele mesmo não conta tudo para as duas?

Vi que curiosamente o dia estava amanhecendo, não demorou muito e ouvi à porta de casa:
- Acorda, Celso dorminhoco...


Gabriel de Deus!
El fuego camina conmigo.

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